Em continuação à nossa série especial, apresentamos o segundo volume dos ensaios escritos pelo coletivo literário de Garopaba, Mulheres que Escrevem, durante a visita à obra do Trabucco. Neste volume, o foco se volta para a materialidade da nossa construção: a cor Castor da fachada, os vãos de luz que lembram os porões de navios e a preservação do teto ondulado que abriga o nosso futuro antiquário e galeria de arte. Confira os demais textos desta imersão literária.
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Por Andréia Sharcow
A Carcaça
Quando tiramos os vasos, os quadros, os objetos, os móveis, os tapetes, as luminárias, a decoração, aquela poltrona confortável, as almofadas, a mesa, as cadeiras, o espelho, as toalhas bonitas, o que resta? O que fica quando esvaziamos a casa e a deixamos somente na estrutura, na carcaça. O que fica? O que enxergo? E se tirarmos também a cor das paredes? Novamente ali não existe mais nenhum elemento de intervenção estética, ali não existe mais preenchimento, ali só ficou o bruto? Tirei tudo o que cobria os meus olhos de realmente ver, ver a estrutura, ver o real, e quando olho para este real, me gera um certo desconforto pela “bruteza” (não sei se existe essa palavra).
Eu adentro em uma outra camada da casa, a primeira, a bruta, a que dá a estrutura para que existam as almofadas lá dentro. E para onde minha imaginação me leva quando vejo a casa desta forma despida? O que sinto?
Quando eu olho para esta casa, que histórias ela me conta? Um misto de luz e sombra. No andar térreo existe muita luz, ventilação, enxergo o externo, o mundo que se movimenta, dentro e fora, é amplo, me sinto livre, posso transitar entre seus ambientes com facilidade, não tem obstáculos, as janelas me permitem ver a rua, me dá uma sensação de liberdade, talvez porque possa enxergar o horizonte, e “horizonte” para mim significa sonhar, quando sonho com meu futuro eu olho para o horizonte e ele me retribui dizendo: “vai minha filha, siga em frente”.
Voltando ao andar térreo, observo, desconstruído, no sentido de estar em sua fase nua e crua, visceral, o que enxergo, o que sinto? Essa casa foi pensada ou sonhada? Estes nomes sempre apareceram em sua história quando é contada pelos humanos? Quem é o proprietário? Quem projetou? Mas quem construiu? Quais mãos, mentes e corações estavam presentes ali na construção em cada parte desta casa, ali estão guardadas as impressões dessas pessoas, e quem são estas pessoas, quais são suas histórias?
No canto deste grande e iluminado espaço que é o térreo tem uma escada. Subindo a larga escada chego ao primeiro andar ou andar de cima, e foi um boooom em meu coração. Senti uma flecha vindo em minha direção, disparou meu coração, tive sentimentos diversos e aos poucos observando a carcaça daquele lugar fui entendendo o que senti. Lá em cima o teto é muito alto e assimétrico, tem dois buracos redondos bem no alto da parede. No chão tinha ferros, trilhos de ferro preto - de onde será que eles foram retirados? Também tinha uma corrente grossa com um grande cadeado. A luz entrava apenas pelos dois buracos na parede, o dia estava nublado. No encontro das paredes, na quina de um lado, tive a impressão de que as paredes não estavam alinhadas, mas acredito que a ilusão de ótica foi apenas efeito de luz e sombra. Fiquei lá parada por um tempo tentando entender minha sensação, racionalizar o sentimento.
Saí de uma parte da casa onde a construção era aberta, espaçosa, clara, iluminada de luz natural e quando subi as escadas senti um baque, dois buracos redondos na parede, que me pareceu escotilhas de um navio, e o teto parece o fundo de um assoalho do andar de cima. Nossa! Entendi! Me senti dentro de um porão de um grande navio, mas nunca estive num navio, como posso sentir tudo isso? Eu nunca estive em um navio, mas meus avós... ah, sim, eles vieram da Rússia para o Brasil em um navio e meu pai foi concebido lá. Só isso que sei. Quanto tempo esta viagem durou? Quantos dias em alto mar? Qual o verdadeiro motivo pelo qual eles vieram para cá? Como foi esta viagem? Como foi chegar em uma terra onde não se fala a língua, com todas as incertezas pela frente? Não sei, eles não falavam nossa língua e a história se perdeu. E minha avó... uma mulher que deixou sua terra, sua família e veio para cá com meu avô e dois filhos pequenos e ainda engravidou a bordo do navio..... Tento imaginar como ela se sentiu, mas acho que não alcanço o tamanho da dimensão. Estar neste andar da casa, neste cômodo, me atravessou. Ver suas paredes desnudas mexeu comigo, atravessou o tempo, me trouxe memórias profundas. Mas que memórias se eu só sei de um pedacinho dessa história, tanto da história desta casa, quanto da história dos meus avós?
Será que vivenciar esta casa em sua carcaça mexeu com minha imaginação ou adentrou meus poros, minha pele, e acordou toda a memória dos meus ancestrais por estarem entranhados em mim? Era só para observar a construção, a arquitetura, a casa, mas isso tudo me atravessou e eu fui para além dela, penetrei na sua, e na minha alma.
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Por Valéria Marret
Uma História
Muito antes do Trabucco ser pensado, aqui já havia uma história.
Uma história que não conhecemos por inteiro, mas que podemos imaginar quando olhamos para as fotos antigas de uma Orestes de antigamente…
Pessoas viveram aqui. Talvez tenham celebrado aniversários, festas, encontros e momentos importantes. Quem sabe um pai pescador, uma mãe que salgava os peixes e crianças que cresceram correndo pela praia, brincando de desenhar na areia.
Será?
Não sei. A pesca é uma arte. Salgar o peixe é uma arte e desenhar na areia uma linda arte.
É apenas um “será”, uma história que não está nos livros nem nas paredes, mas que habita a minha imaginação.
O tempo passou. As pessoas cresceram, as famílias seguiram seus caminhos e as casas, um dia, deixaram de existir.
Os imóveis encerraram o seu ciclo.
Mas o lugar, não.
Ele carrega tudo aquilo que já foi. É uma energia que roda, roda, roda e não sai dali, porque ela é dali.
Percebem que uma obra não começa do zero?
O espaço começou a ganhar um novo sentido, tomando lentamente a forma de um grande Centro Cultural, um lugar pensado para abraçar a arte e as pessoas de Garopaba.
O piso de concreto bruto e as paredes, que agora vão sendo amaciadas pelo trabalho, parecem dizer:

As ferramentas, os materiais e as marcas de uma obra em movimento.
“Venham. Toquem. Sintam.
Nós estamos construindo a nossa identidade com todos vocês.”
E, enquanto a transformação acontece, começamos a perceber que o lugar também está mudando a maneira como nos relacionamos com ele.
O som da Orestes, aquele som que todo mundo conhece, parece desaparecer lá dentro.
Um silêncio diferente, que ainda não conhecemos.
Olhando ao redor, tantos vidros grandes... mas os tapumes da obra ainda atrapalham o que iremos ver lá fora. Por enquanto, vemos ali dentro. Uma viga bem envelhecida, um tesouro das antigas casas, que interessante.
A cor escolhida foi o Castor que combina com a viga!
E não é que também lembra as águas da Praia da Ferrugem?
E nos remete à cerâmica do povo Guarani, à cor do barro...
Tudo vai ganhando um sentido.
Quando a gente toca na caixa de componentes hidráulicos, com o pó branco da parede que foi lixada, é como se estivéssemos deixando a nossa impressão digital ali.
“Olha, eu estive aqui!”
Como se estivéssemos assinando o livro de presença da galeria de exposições.
“Olha, eu estive aqui!” — uma pequena marca no meio da obra.
Até o cheiro de maresia da Orestes parece diferente ali dentro.
Está mais distante, mais misturado aos cheiros da obra, como se o espaço estivesse temporariamente criando a sua própria atmosfera.
E então vem aquele aroma defumado da brasa que entrega que tem mais alguém ali...
cheiro do churrasquinho de sexta-feira da equipe da obra.
O churrasquinho de sexta-feira: trabalho que também vira encontro.
É o lugar criando suas próprias memórias.
Porque algumas memórias chegam pela imagem.
Outras, pelo som.
Algumas ficam nas mãos.
Outras ficam guardadas no cheiro.
E existem aquelas que ficam.
Aquele gosto de uma comida compartilhada, de um café tomado no meio de uma conversa, de um churrasquinho de sexta-feira que reúne pessoas no meio da obra e, por alguns instantes, transforma o trabalho em encontro.
Talvez a gente nem perceba naquele momento, mas são essas pequenas coisas que um dia podem voltar como lembrança.
A equipe de obra já instalou naquele espaço uma coisa que nenhum projeto consegue garantir:
A acolhida.
A confraternização.
A pausa.
A conversa.
O compartilhamento.
O espaço que começa, antes mesmo de ficar pronto, a ser um lugar de gente. Um lugar de gente que a arquiteta Rosário e os proprietários Humberto e Zeca souberam ver.
Um espaço que já se mostra acolhedor antes de ter suas portas abertas.
E talvez seja essa a primeira receita do Trabucco:
não uma receita escrita em papel,
mas uma receita feita de gente.
De encontros.
De histórias.
De pequenas marcas deixadas pelo caminho.
E toda essa transformação parece deixar no ar uma espécie de magia.
Gosto de imaginar que aquele pó branco da caixa é uma espécie de poção mágica.
Uma poção que, para quem passa por aqui, desperta um pouco mais de curiosidade, encantamento e desejo de conhecer.
Porque, antes mesmo de estar pronto, o Trabucco já começa a contar uma história.
Alguma coisa em nós também está sendo construída.
Talvez seja a sensação de pertencimento.
Talvez seja uma nova memória.
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Por Tatty Souza
Trabucco
Inspirada nos antigos armazéns baleeiros, com base nos açorianos que aqui chegaram, mas que mais parece um prédio industrial, essa é a primeira impressão da construção do Trabucco. Da antiga propriedade, sobraram apenas enormes vigas que permanecem na estrutura, agora não mais sustentando o peso de tudo, mas sim fazendo parte da decoração do ambiente, e que será apreciada como uma obra de arte assim como todas as outras que virão. O Trabucco Cultural e futura Fundação Trabucco veio para marcar presença desde o primeiro olhar. Quem vê por fora a cor marrom castor já a contrasta com o azul do céu e do mar.
Lugar que irá acolher uma vida inteira, histórias de vida, memórias de viagens que serão expostas para quem quiser ver, quantos segredos guardados. Espaço que veio para ser diferente dos demais. O tour começa por um futuro café afetivo, onde hoje o afeto foi o churrasco na sexta-feira dos trabalhadores; dele, vê-se pedaços de carne ainda expostos em uma tábua, assim como as obras irão ficar, expostas.
Paredes ainda brutas, o chão com cimento aparente, não aquece nem é afetivo, mas um dia será, um dia será cenário de memórias. Vejo a pobre goiabeira que está lutando para sobreviver, os frutos que um dia foram saboreados, e que hoje podem atrapalhar o futuro afetivo.
No espaço administrativo, começo a ver arte, cada detalhe parece uma obra de arte ainda abstrata. Com as luzes que vêm de fora, cada canto tem uma variação diferente da mesma cor, o cinza, que predomina. A galeria principal, com teto ondulado, surpreende pela forma e parece, às vezes, as ondas do mar, às vezes o fundo de um navio, com suas duas escotilhas clareando tudo e transformando essa atmosfera. Essas escotilhas deixam as paredes em tons de cinza, a mesma cor parece serem duas, assim como as obras de artes que um dia aqui estarão, cada visitante terá uma impressão, uma visão diferente de cada ângulo que olhar.
Que presente Garopaba receberá.
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Por Nádia Maria da Silva
Espaço Cultural Trabucco
A casa encontra-se vazia de obras de arte, mas cheia de arte!
Em seu vazio, nos deparamos com a arte da escada; da fachada; das aberturas. Aberturas que transportam ao interior toda a beleza do dia.
Vazia de móveis, mas plena de indícios que tal casa contemplará - algo suntuoso.
A escada é uma arte. De início, crua, áspera, puro concreto, mas, pelo design, tornará a amostra de beleza que se inicia no térreo e alcançará o ápice no andar superior. O visitante se satisfará a cada degrau alcançado .
Recepção vazia. Mas, por hora, cheia de resquícios de obras; obra de construção civil: latas de tintas, sacos de colas, louças de banheiros ainda por instalar no local adequado. Uma recepção cheia de desenhos, e já cheia de esperança de arte: como ficará num futuro próximo.
Em breve, amantes da arte estarão em todos esses locais, dividindo espaços com relíquias escolhidas a dedo pelo seu idealizador.
Enquanto o espaço cultural Trabucco se encontra em fase de acabamento de sua construção, idealizamos um espaço cheio de cultura, obras de artes, sentimentos, expressões e o melhor de tudo, cheio de pessoas felizes.
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Por Regina Maria Guaragna
Ergue-se da terra como pulsão
Aponta para as relações nas singularidades
Que se alinham em hierarquia
Ascende como curva em movimento
Revela um processo gradual
Entre o mundo material ou espiritual
E na arte:
Suporte do imaginário
Tranquiliza e encoraja o visitante
Progredindo em direção ao saber
Ao deslumbramento e estado de contemplação do Belo
