Antes que as obras de arte ocupem as paredes e os livros preencham as estantes da livraria, o Trabucco já se firma como um ponto de encontro e criação. Recebemos as integrantes do grupo Mulheres que Escrevem, de Garopaba, para uma imersão poética pela estrutura em construção do nosso complexo cultural.
Entre vigas de ferro preservadas, paredes em acabamento e jogos de luz que remetem aos antigos armazéns açorianos, cada escritora observou a atmosfera do espaço que nasce para salvaguardar a memória e fomentar a arte regional.
Criado em 2022 a partir de um movimento nacional de valorização da autoria feminina, o grupo @mulheresqueescrevem.garopaba reúne mulheres de diversas vivências que transformam o cotidiano em literatura.
Durante a visita, elas caminharam pelos ambientes ainda em formação e sentaram em um grande círculo para conversar com o Coordenador Literário do Trabucco, Gabriel Cunha Marchi e com a arquiteta Rosário Tirado.
O objetivo? Transformar o encantamento visual em palavras. A partir das impressões colhidas nessa imersão entre obras de arte e paredes que já respiram história, as autoras passaram a produzir textos inéditos sob suas perspectivas únicas.
Convidamos você a acompanhar essa jornada literária e a descobrir, através do olhar dessas mulheres, os primeiros contornos do nosso legado cultural.
A partir de hoje, iniciamos a publicação dessa série especial de ensaios e poemas inéditos inspirados em nossa arquitetura e propósito, que serão divulgados aqui no nosso Blog e nos nossos perfis do Instagram @trabucco_mercantedetesouros e @trabuccocultural. Convidamos você a percorrer a obra sob a sensibilidade do olhar feminino. Confira os primeiros textos desta imersão.
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Por Karina Marckmann
Hoje visitamos um lugar:
existem fundações, estruturas
e paredes por terminar.
Poeira no chão,
ferramentas espalhadas,
homens trabalhando,
Uma mulher coordenando.
Caminhei devagar.
Entre tijolos, madeira e cimento,
tentei imaginar
como serão preenchidos
aqueles espaços.
Arte.
Exposições.
Músicas.
Poesias.
Histórias.
Crianças.
Encontros.
Gente chegando
e gente querendo ficar.
Mas havia também
uma presença mais antiga.
Vó Trabucco. A mãe desse lugar.
Talvez seja assim
que a memória permaneça viva
sem prisão ao passado,
mas encontrando novas formas
de continuar vivendo.
Uma casa assim não se constrói apenas
com tijolos, vigas e mãos.
Se constrói também
com aquilo que recebemos
de quem veio antes
e escolhemos transbordar
para quem quiser aprender a vida honrar.
Hoje visitei uma construção.
E, entre paredes, ainda abertas,
percebi:
as casas
começam a existir
muito antes
das paredes.
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Por Thais Pires de Andrade
I
Palavras concretam mundos
se eu fosse criar um
seria assim
II
Sentadas em roda, mulheres fiam mais um ponto do tecido da Casa, que, aos poucos, se revela como o novelo. Debaixo de temporal, compartilham seus devires em meio a marteladas que levantam o pó de uma grande curiosidade. O cheiro da obra molhada atiça a imaginação desse oásis na pequena cidade vizinha do Oceano Atlântico. Garopaba ganha de presente uma avó monumental.
As tecelãs de palavras são convidadas a levantar e embarcar pelos mares do mundo. Navegam os olhos abençoando a direção escolhida pela Rosa dos Ventos para trazer o legado de Ana até nós. O Mercante encontra tesouros. As obras encontram um cais. Mulheres encontram um porto seguro de águas tão marinhas quanto as baleias que povoam esse armazém com a cor do amanhecer.
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Por Valdíria Thorstenberg
Arte e Ciência:
da Edificação ao Acolhimento de Crianças.
Ter sido convidada por José Trabucco para conhecer o Trabucco Cultural (em final construção), e futura Fundação Trabucco, é ser testemunha da implementação de um projeto que acolherá e desenvolverá o humano, com "base na Ciência" como "premissa e objetivo”. A palavra "restauro" se sobressai de imediato durante a conversa. Antevejo o eco dessa palavra ressoando suave e consistente em cada espaço arquitetônico preparado.
A transformação de uma viga de ferro, antes sustentação do telhado, tornou-se um marco tangível de memória imaterial.
No teto, ela delineia espaços, também o mental do emocional: aquele com o qual chegamos, objetivo e curioso, e assim muitos de nós chegaremos, e aquele que nos conduzirá ao contato subjetivo por meio de materiais para fazer arte na papelaria; por peças raras garimpadas para o antiquário; texturas; formatos; cores; culturas e épocas, levando-nos a flutuar em uma instância estética de reencontro e reconhecimento de nossas e outras ancestralidades e essências.
Permaneço in loco na contemplação do que agora ali está: materiais de construção, de acabamentos, mesa e ferramentas de trabalho e construtores em ação.
É manhã de sol na cidade praiana. Tão logo após ser convidada a subir escada de largos degraus, brutos, mas simetria leve em relação ao todo, a permitir a ousadia de mais conhecer, sinto-me em suspensão. Não sei ao certo se o enorme salão superior é o fundo de um barco ou a cabine de demiurgo Pirata a dispor, em breve, cenários, obras e miragens em tela de outros viajantes das Artes. - o que agora se vê são paredes lisas, quase claras, teto preto, piso de cimento queimado e luz que incide das duas escotilhas voltadas para o céu da montanha do poente. O jogo de diversas intensidades de sombra e claridade predispõe ao desejo de permanência no encantamento. Ora, não há como não ficar “mareada” pelas linhas da arquitetura que se encontram como melodia no conjunto formado pelas cores, linhas retas e curvas, e, lá de fora, pela claridade do azul solar do meio-dia. Terra firme ou mar? Estou numa galeria ou em uma galera? Em ambas. E em viagem, agora, no presente, e, na futura galeria de arte, com obras já em exposição, em uma navegação no passado, ao clássico e no contemporâneo. Certeza absoluta de um singular convés, apuro o ouvido e quase escuto o mar.
Nos passos subsequentes, entre o que ainda não está pronto, mas já em finalização, e a antevisão do que vai sendo explicado por José Trabucco, descortina-se o futuro: “aqui, a sala de restauro e ali o solarium...; “esta, a biblioteca especializada para pesquisa”...; “mais reservada, a sala para atendimento dos projetos e capacitação dos profissionais”; “aqui acima, no corredor, pendurado no teto, estará um barco...”; “aqui, recepção de materiais e espaço de carpintaria e ali, de e-commerce” e imagino este enorme barco navegando em histórias vívidas.
E se desce novamente a mais um “convés”, o de uma construção contígua, também por uma escada larga, “que terá lateral bem segura” - essa para o especial trânsito de crianças e professores, que vão das salas ao pátio, lanchonete e banheiro privativo. Eu as vejo livres, assistidas, barulhentas, coloridas de tinta e texturas; e felizes - criando seu mundo. Também fazendo lanche e comendo pipoca no cinema ao ar livre, com projeção na enorme parede-muro. Impossível não imaginar adultos assistindo a filmes e discutindo sobre seus temas com especialistas para a compreensão de mundos e idealização de utopias, desejando colocá-las em prática.
Desde o espaço donde estará a recepção, abstraí em duas visitas o burburinho do movimento urbano. Foi na segunda visita, sexta-feira de uma tarde chuvosa, que conheci a arquiteta Rosário, responsável pela obra. Pude sentir sua dedicação ao projeto enquanto ela contava para o nosso grupo Mulheres que Escrevem, mostrando detalhadamente espaços e suas funções, sobre a adaptação da planta às exigências do projeto arquitetônico, como a viga se transformou em símbolo de sustentação: “ali, na recepção, na passagem da Papelaria para o Antiquário”, e de seu entusiasmo com o Trabucco Cultural. Quando estiveres lá, olhe, lá está a pesada viga incrustada no teto, transformada em leve obra de arte e memória.
Nessa visita, os mesmos homens que noutro dia lidavam com canos e acabamentos agora estavam em almoço de churrasco de final de semana de trabalho. Tranquilas eram suas conversas a compor o espaço e um tempo – memória do humano.
Volto da “viagem” pelo texto, e ressoa ainda a palavra “restauro”, e nela penso não só que a vivência da arte transforma pela interação entre o indivíduo e o ambiente. Incluo nesse pensar e sentir a acepção de “restauro” como verbo, sonoro, de ação fecunda; principalmente da ação de quem ancorou em Garopaba para criar e gerar cons-Ciência por meio da Cultura.
Os garopabenses, os turistas, todos os que admiram e sentem necessidade de conviver com o belo e construtivo, também entre eles os “permeáveis” ‒ aqueles que se deixam atravessar pelas alegrias e dores da condição humana e as transformam em Arte ‒, honrados agradecemos.
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Por Regina Maria Guaragna
Em Construção
Observo a arte da construção
Encontra-se em pausa
É o vazio! O espaço é intencional
Refere-se ao intervalo!
Não é um vazio físico
As tensões se distribuem
A luz que passa pelo óculo
Dá sentido, ritmo e foco à arte e às relações.
As potencialidades eclodem
A energia essencial é retomada
A forma, a luz e os elementos se revelam
Gerando uma identidade visual
Ao despertar emoções.

Fotos: Regina Maria Guaragna
